Os juros, os bancos e o timing
Publicado pelo BroadCast (AGESTADO), em 10.05.2012
Dilma Rousseff não se elegeu para fazer reformas impopulares; tampouco para comprometer o jogo político de seu grupo com medidas que criem turbulência, incompreendidas pela massa. Elegeu-se no contexto de um projeto de poder e o que dá o tom de seu mandato é ser consistente com o projeto e a manutenção desse poder. Não é exclusividade sua: desde que o mundo é mundo, o poder, qualquer poder, quer manutenção e, depois, ampliação. O Príncipe, de Maquiavel, ano que vem, faz 500 anos. É assim.
Alia-se a isto, sua visão de mundo. Antes de tudo, baseia-se na ideia de que o desenvolvimento passa principalmente por aquilo que seus companheiros chamam “a economia real”: a indústria e os tais “setores produtivos”. Riqueza que cria empregos e produz o mundo concreto. Os juros, nesse sentido, se confundiriam com a usura, não com a produção.
Após 2008, revelada a ousadia financeira que produziu a crise mundial, viabilizaram-se politicamente visões de enquadramento do mercado financeiro. Numa visão simplista, os bancos nada produzem; alimentam-se do setor produtivo. Certo ou errado, economicamente consistente ou não, não vem ao caso. Também não vem ao caso o acerto de longo prazo desse tipo de medida. Essa política tem olhos no presente. Ademais, os juros brasileiros estavam entre os maiores do mundo. É inapelável. Contra símbolos, argumentos podem pouco.
Além das circunstâncias acima, os bancos sempre tiveram um cadinho de preferência pelos tucanos, acolheram seus quadros mais vistosos, torceram por Serra. Surpreenderam-se com Lula, engoliram Mantega e até se rasgaram elogios a Dilma. Mas, nunca houve maior afinidade com petistas — não sem motivo, a desconfiança é enorme. Paixão de menos, o romance acabou. Estabeleceu-se a verdade: a desconfiança mútua!
No tempo em que os mercados internacionais eram indóceis e seletivos, poder-se-ia temer fugas de capitais, ataques especulativos; disparadas do dólar, solavancos inflacionários. Mas, num mundo em crise, reduzidas oportunidades de alocação e ganhos pequenos, o Brasil-bola-da-vez justifica alguns sapos.
Como as nações, bancos “não têm amigos, têm interesses”. A sabedoria do mercado é separar discurso e ação; riscos e oportunidades. No limite, sair na undécima hora, à frente da manada. Há possibilidades de ganho, ainda assim. O País continua valendo a missa.
Já governos não são exatamente assim: trabalham pelos interesses de sua base política. Dilma encontrou a desculpa e a ocasião para proteger os seus. É presidente que se fez popular, envergando agora uma bandeira ainda mais popular: elevadas taxas de cartões de crédito, cheques especiais, financiamentos de capital de giro, taxas de administração, portas giratórias, constrangimento nas filas… Tudo o que engrossa um caldo de cultura.
De um modo intuitivo, a presidente encontrou o momento para explorá-lo. Abriu-se uma janela de oportunidade e ela a atravessou. É possível que o tenha feito com algum voluntarismo – o governo é suscetível à pressão; o desencontro de informações e o bater de cabeças entre órgãos oficiais denuncia certo amadorismo –, ainda assim, a ação tem lá sua inteligência: enfrentando bancos e diminuindo juros, a presidente edifica os símbolos de seu mandato. Sua “luta”, justifica mudanças nas regras da Caderneta de Poupança e, adicionalmente, sai pela tangente da agenda negativa do Congresso, a CPMI do Cachoeira.
Irrite-se quem quiser com a eventual inconsistência econômica das medidas, mas o fato é raro: sorte, timing ou coincidência, Dilma ousou num momento politicamente propício. Os bancos, que inicialmente esboçaram reação, se recolheram. Melhor não polemizar; não é momento.
Ademais, mesmo que quisesse fazer o que, na ótica dos bancos, seria “a coisa certa” — medidas estruturais e sustentáveis para a queda de juros –, o governo careceria de sistema político e base de apoio para engendrar processo mais profundo, qualitativo e conflituoso de reformas. Faltam incentivos de curto prazo; num ambiente escorregadio como o atual Congresso, seria exigir heroísmo romântico por um amor que não é o seu.
O mercado financeiro não tem dado bola para o governo e a política; assustado com a crise externa, sua atenção localiza-se nos escombros das economias avançadas. Todavia, agora será forçoso admitir que a fragilidade do sistema político e a heterogeneidade da base tornam as condições cada vez mais limitadas para que os livros-texto se imponham à realidade política do Brasil. A racionalidade é sempre a racionalidade das circunstâncias!
A agenda presidencial, de enfrentamento a políticos e bancos, faxinas e cruzadas, faz a fama de Dilma; dá sentido de efetividade ao governo, sustenta o projeto de poder. Pressionada pela indústria sem condições de concorrer, cismada com os juros, acossada pelo fisiologismo aliado, atenta com jogo perigoso da CPI, a presidente encontrou o caminho de fuga: açoitar bancos, reduzir os juros, resolver o impasse da poupança. Manchetes retroalimentam o processo: os editorais dizem que “Dilma teve a coragem que faltou a seus antecessores”.
Enfim, surfando na popularidade de extraordinários 77%, baseada em eficiente comunicação e na construção da imagem de gerente intrépida – com um mito encarnado em sua retaguarda (Lula) –, Dilma Rousseff dá consistente passo à frente: tudo o mais constante – note bem: tudo o mais constante –, é favorita para 2014 – ainda que 2015 possa, mais adiante, configurar o precipício.
*Carlos Melo é cientista político e professor do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”, escreve quinzenalmente para o AE News.
CPI, “Pelé no banco” e “São Lázaro”
Publicado pelo AE News (Agência Estado), em 24/04/2012.
O ambiente é de tensão e suspense; o caldeirão de boatos ferve e produz insinuações de todos os gostos. Mas, a leitura atenta da mídia, onde tudo é fragmentado, permite ainda assim juntar cacos: nem os partidos sabem ao certo onde tudo isso vai dar; o que parece certo é que há conluios entre contraventores e autoridades, corrupção atrelada a financiamentos de campanhas; crime organizado associado à política. E ao mesmo tempo, há também oportunismos de todos os tipos. Muitas zonas de sombra e pouca luz. O clichê é inevitável: a CPMI “do Cachoeira” pode dar em tudo, inclusive, nada.
Não porque CPIs terminem invariavelmente em pizza. Ao contrário do que se imagina, elas apuram e sugerem medidas, que é o limite de seu papel. Não raro, vão além das expectativas; implicam envolvidos e encaminham propostas a quem de direito. À exceção da “CPI do Banestado” — que terminou sem sequer um relatório –, CPIs como “PC Farias”, “Anões” e “Correios” começaram desacreditas, mas ao final e a cabo significaram mudança. E se ninguém foi para detrás das grades é menos por responsabilidade dos parlamentares que do Ministério Público ou Judiciário.
No entanto, o que torna esta CPI mais imprevisível é a complexa teia de interesses e relacionamentos nela abrigados; a variedade de atores, poderes e personagens supostamente envolvidos. As denúncias que “pingam” na imprensa apontam para esquemas muito maiores que “malfeitos” ou “relações perigosas” entre parlamentares falsamente moralistas e contraventores; entre governos e empreiteiras. As goteiras indicam a existência de um manancial de práticas políticas escussas, sistematicamente mapeado ao longo de anos pelas operações Monte Carlo e Las Vegas, baseadas em sofisticadíssimos métodos de investigação e em aparelhagem ultramoderna, como é o caso do “Guardião” – a super escuta utilizada pela PF.
De modo que, algo relativamente inédito nesta CPI, a investigação já está quase toda feita; tanto a Polícia Federal quanto o Ministério Público já avançaram em seus campos; as investigações partiram dali. A mina de onde brotam as denúncias está repleta, portanto; é moderna, profissional, meticulosa e detalhista – nada a ver com parlamentares travestidos de “Inspetores Clouseau”. Ao Congresso restará o papel de transformar (ou não) isso tudo em escândalo. E isto não será necessariamente ruim, para a sociedade.
O que hoje se encontra protegido por segredos de justiça, nas mãos dos políticos se transformará em munição pesada para todo tipo de disputa, pressão, negociação de interesses paralelos, muitos inconciliáveis — viva os “interesses inconciliáveis”! As goteiras tendem a se tornar cachoeiras e mais à frente, na contradição de disputas e desafetos, podem se converter em tsunamis. Haverá controle?
Provavelmente, não. O governo não demonstra nem coordenação nem habilidade para dirigir o processo e sufocar essas disputas. Sua base é até mais contraditória entre si do que em relação à oposição. Ademais, há uma miríade de sites, blogs e redes sociais que disputarão o “furo” e a primazia pela revelação de imoralidades. Nesse ambiente, colher informações será fácil; contê-las tende a ser praticamente impossível. Na época da “CPI do PC”, sequer Internet existia.
Possibilidades de acordos e conchavos existem, é claro. Mas, dificilmente se dará internamente, nesse ambiente confuso e comprometido. Vetos cruzados, munição trocada, podem conter o tiroteio, mas basta que um “desavisado” qualquer se empolgue e resolva ser consequente com o “doa a quem doer”, assinalado por Lula; ou “o Brasil cansou”, registrado por FHC.
Mais provável, é que o milagre da conciliação, se houver, se dê pelas mãos de advogados, operadores externos ao sistema político, experientes e tarimbados. E também muito bem pagos.
Deixando os impasses da CPI, passamos ao mais recente DataFolha. A pesquisa não só confirma que Dilma bate recordes de popularidade, como também que o ex-presidente Lula é, aos olhos de hoje, favorito para a disputa de 2014. O quadro não expressa novidade: que Dilma – por motivos diversos – vinha bem não surpreende ninguém. Menos ainda é de admirar que Lula, em curto período, voltasse a frequentar a lista da qual, na verdade, nunca esteve de fora.
Desde os primeiros movimentos de viabilização do nome Dilma, era possível supor que na estratégia do ex-presidente coubesse a hipótese de levantar-se, dar uma volta e sentar-se, novamente, na mesma cadeira. Quem não se deixou cegar pela tese estapafúrdia do “terceiro mandato” percebia que a hipótese, desde a concepção da sucessora, esteve o tempo todo no baralho. “Queremismo” revisitado, qual o “Queremos Getúlio”, de 1950.
O destino e a doença, no entanto, tornaram esse quadro ao mesmo tempo menos previsível e mais dramático. Menos previsível porque, com afastamento de Lula, o sistema político ficou mais indócil, confuso e desorganizado; as guerras na base se estabeleceram e interesses antes periféricos começaram a se deslocar para o centro. O maior exemplo é a desenvoltura com que hoje o governador de Pernambuco frequenta as articulações de 2014. Mais dramático porque, afinal, não há nada de maior apelo político-emocional do que o enfrentamento de um câncer. Após superá-lo, Lula não apenas é a grande liderança que deixou o poder há pouco mais de um ano, como também assume ares de semideus; quem sabe, Santo.
Claro, Dilma é a primeira da fila, a titular. Mas, continuará sendo apenas na medida em que Lula precise ou possa continuar no banco; quer seja por falta de condições para entrar em campo, quer seja por dispensável. Se o time estiver ganhando, não se mexe; não carecerá substituição. De todo modo, já se disse isto, será “um Pelé no banco”.
O quadro é mais uma “flechada em São Sebastião” para uma oposição já combalida, rachada e sitiada em seu próprio labirinto. Há quem aponte, sem exageros, que a oposição está na UTI. O PSDB, consumido por disputas internas parece madeira que cupim comeu; esfarela-se. O DEM… Bem, o DEM demorará a superar o trauma Demóstenes, se é que superará. Times de futebol e amores se desfazem, por que com partidos seria diferente?
Saídas, alternativas? Difícil dizer; forjar um novo discurso, colocá-lo na boca de um candidato e viabilizar esse candidato, aos olhos de hoje, não é coisa simples. Sobretudo, considerando as condições gerais do país, do lulismo e da própria oposição. Claro, aos olhos de 2014, pode ser diferente. Mas, não se constrói isso tudo do dia para noite. Ex-post é fácil, mas a construção dessa candidatura deveria ter se dado já em 2010; ter-se-ia ganho quatro anos. Uma leitura incorreta do processo – mais uma – fez a história que todos conhecemos.
Agora, além de contar com a sorte própria, os oposicionistas terão que torcer por tropeções do governo e, pior, percalços no caminho do país. Assumir o papel do quanto pior melhor é desgastante; afinal, ninguém torce pelo palhaço cuja alegria é ver o circo pegar fogo.
Mais que na UTI, a oposição parece desencarnar. Só mesmo um “Jesus Cristo” como que a gritar: “Lázaro, levanta-te e anda!” para que o corpo reaja. Cristo baixar à terra é questão de crença. Difícil mesmo é “Lázaro” escutar; Lázaro tem mania de ouvir apenas o que quer!
Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”.
Globo News Painel, 21 de Abril.
Popularidade – a César o que é de César
Publicado pela Agência Estado (AE NEWS), em 10.04.2012.
Os dados não foram abertos, nem temos o suporte de pesquisas qualitativas, mas mesmo assim cabe perguntar se os 77% da popularidade presidencial aferidos pelo Ibope não correspondem a um processo mais amplo, que vai além da personagem e seu governo. Em política real – mais do que no marketing político – é necessário “dar a César o que realmente é de César”, até para que se possa compreender a força real do governante, de modo a não sub ou superestimá-la. Às vezes, a popularidade tem razões que a própria razão desconhece.
É justo inferir que parte desse índice possa ser atribuída a aspectos específicos da economia: o país vive o mais baixo índice de desemprego desde o início da série histórica, em 2002. Pessoas sem emprego são, naturalmente, mais críticas e amargas; colocam na conta da ação (ou inação) do governo boa parte de sua desventura. O contrário, ter emprego é a base da satisfação e isto transmite segurança, otimismo e bem-estar. É como se a euforia dançasse ao ritmo de James Brown: “I feel good (…) I feel nice, like sugar and spice”.
Logicamente, essa sensação eleva a esperança do sujeito, que passa a confiar mais no futuro. Transformado em consumidor, continuará comprando, girando a economia e, assim, produzindo empregos. Nesse ambiente, compara-se o país do presente com seu próprio passado e com o mundo externo, atualmente de extrema turbulência; acredita-se na excepcionalidade do país. É um ciclo positivo. Mas, qual a responsabilidade da presidente nisso tudo?
Relativa; “a César o que é de César”. O quadro atual tem sido pintado ao longo de anos e remonta à melhora geral da economia brasileira, desde o Plano Real. Foi gradativo e teve a grande participação de políticas de distribuição de renda e de estímulo ao crédito, forjadas em governos anteriores. O que permitiu a Dilma assumir o governo em condições imensamente mais favoráveis que Itamar, FHC e Lula, de algum modo também credores desse processo.
É claro, a presidente tem pelejado para não deixar a bola cair: as recentes reduções de juros e a insistência para que o desenvolvimento econômico não sofra refluxo ainda maior do que já tem refluído são um esforço e um mérito seu. Todavia, o processo tem sido mais defensivo – e prudencial – do que de alterações substanciais e mais amplas. Ao menos em seu componente econômico, os louros da popularidade devem ser compartilhados.
E também o desempenho pessoal da presidente – reconhecidamente superior ao do governo – requer maior reflexão. Muita gente que não suporta o PT e nem morre de amores por Lula vê Dilma com simpatia por distingui-la do partido e do antecessor. De fato, é uma personalidade mais comedida, pragmática e nada “palanqueira”. É também menos identificada com a política – a “má política”, como aparece aos olhos da população – e seu estilo e estética diferem-se de Lula. Um certo lustro executivo e gerencial e até um sutil polimento intelectual cai nas graças da classe média de eternas restrições ao antigo metalúrgico, mais popular e carismático.
Todavia, o apoio do eleitor típico do PT e a liderança popular de Lula estão também contidos no grau de aceitação da atual presidente. Para dezenas de milhões de pessoas, Dilma e Lula são unha e carne e é isto que lhe dá força, sendo Lula seu guardião. Não se verá nas pesquisas, eleitor que aprove Lula e o PT e desaprove a Dilma. Já o contrário será absolutamente natural. PT e Lula somam-se ao estilo Dilma, não subtraem. Já a percepção de menor identidade e maior diferenciação com o PT e Lula pouco ou nada lhe retira; lhe acrescenta. Então, mais uma vez, “a César o que é de César”: parte de sua popularidade deve ser creditada à popularidade e à força política de seus companheiros.
Para alguns analistas, a suposta “faxina no governo” e o “enfrentamento” com os partidos aliados têm sublimado a popularidade. Tal é o desgaste público do sistema, qualquer altercação em relação aos políticos logo cai nas graças da mídia e da massa em geral. Está aí o caso do senador Demóstenes Torres para provar que parcela da população é mesmo suscetível ao discurso moralista e antipolítico.
Mesmo não sendo exatamente uma “faxina”, a cada vaso que se quebrou, a presidente tratou de recolher e dispensar os cacos e assim vários ministros foram defenestrados. Foi aplaudida e, ainda que os “vasos” sejam repostos com exemplares do mesmo jaez, há que se admitir que a comunicação da presidente agiu com eficiência. Além disso, a espécie de freio de arrumação dado no Congresso, ao substituir lideranças, expressou um desconforto com o “toma-lá-dá-cá” rapidamente reconhecido pela população.
Todavia, também é verdade que Dilma se beneficia por contar com maioria no Congresso, à custa do loteamento do governo. É normal, e nem de longe isto significa abalo ou rompimento com velhas práticas. E, ainda que lhe causem problemas, pelo menos até aqui seus “aliados” optam antes pela tensão que pela ruptura. A presidente não vive o horror – horror para qualquer governo – de festivais de CPIs transmitidas ao vivo. Diferente de FHC ou Lula, seus testes foram incomparáveis à sangria de batalhas anteriores. Nem a tísica oposição que enfrenta — perdida em seu labirinto – se assemelha à agressividade de outros tempos.
A fortuna de Dilma difere substancialmente dos percalços de seus antecessores e sua virtù, por outro lado, ainda não pôde ser testada. Sua condição de partida muito mais favorável e seus duelos públicos muito mais tênues, até aqui não dão musculatura mais rija à popularidade o que também a torna pouco testada. No que se refere à implantação de um projeto ou à rinha mais virulenta das disputas políticas, em que pese o já quase o ano e meio de mandato, seu governo nem bem começou.
Os tais “feel good factors” ajudam, mas não necessariamente lhe dão força para avançar numa agenda transformadora ou pelo menos de aprofundamento do processo que a beneficia. Isto deveria suscitar antes preocupação que triunfalismo: não se baseando em projeto (FHC), nem em carisma (Lula), a manutenção da popularidade de Dilma depende muito menos de seus atributos que do jogo dos contrários: o campo econômico – sobretudo, o ambiente externo –, a sustentação precária da base e a passividade da oposição. Nesse jogo de damas, em que pese a popularidade, Dilma joga defensivamente.
*Carlos Melo é cientista político e professor do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”; escreve quinzenalmente para o AE News.A exaustão do método
Carlos Melo
Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, de 27.03.2012
Engana-se quem, em razão da troca das lideranças no Congresso Nacional, acredita na mudança filosófica do governo federal. Engana-se ainda mais quem, por causa disso, vislumbra rompimento entre Dilma Rousseff e Lula e a engenharia política do governo anterior. Lula segue como o principal conselheiro da presidente e bobagem será procurar fraturas nesse relacionamento. O ex-presidente sabe que aquilo que um dia foi sólido pode perfeitamente desmanchar-se no ar, com o tempo, com o processo, com o uso. O que se passa, portanto, está longe de uma mudança de 180 graus ou coisa que o valha.
O que há, de fato, é a exaustão natural de um método e de procedimentos que nos trouxeram até aqui, mas que agora sofrem abalos e pedem repactuações. Mais útil, então, será compreender mais esta crise e as eventuais mudanças por ela geradas como o esgarçamento de acordos e relacionamentos firmados no pós-mensalão. Acordos que deram a reeleição a Lula e a sucessão a Dilma; que atraíram o PMDB e contiveram parcelas do PT desde sempre impacientes por, de direito e de fato, assumir o poder – e controlar os meios e dar as cartas.
O que se exaure é o modelo de governabilidade baseado na conciliação de interesses distintos e divergentes por meio da distribuição de espaços e recursos públicos. Escasseiam esses espaços e recursos e logo se deteriora o pacto. E não há mais a sedução presidencial – de Lula -, a conversa ao pé do ouvido, o receber em palácio, o tapinha nas costas, as metáforas de futebol e as promessas de que tudo se acerta, no futuro. Não é o estilo de Dilma e há mesmo uma impossibilidade: sedução e metáforas não resolvem tudo.
O presidencialismo de coalizão não é em si um mal; trouxe-nos até aqui, mas sua natureza expansiva e voraz não aceita limites. Oito anos de Lula, um ano e tanto de Dilma e todo o espaço, por diminuto que fosse, foi ocupado e os recursos, consumidos. A corrida das eleições municipais – na busca por maior cacife e melhor colocação em 2014 – aguça contradições e conflitos internos. A oposição é, antes de tudo, interna – a outra, a institucional, praticamente não existe.
O “é dando que se recebe” de Roberto Cardoso Alves chega ao paroxismo: quando nada mais há para dar, o que se recebe é ressentimento. As fontes secam, as verbas mínguam; os esquemas se esbarram, se confundem e mutuamente se anulam. A política assume sua face de “guerra por outros meios”. O mal-estar é óbvio. O Brasil ainda não deu certo. Não o compreende quem não quer.
Oito anos de Lula, um ano e pouco de Dilma e a base só fez crescer. O triunfalismo estabeleceu-se; o adesismo fundiu-se, agigantou-se e perdeu mobilidade, unidade, organicidade. As margens de ação estreitaram-se, a voracidade naturalmente se transformou em autofagia: os mais vivos comem os menos vivos. Evidencia-se o equívoco: é impossível fugir do Congresso, sonegar-lhe a agenda, evitar a sua pressão. Estratégias individuais assumem lógica coletiva e, por sobrevivência, o Parlamento formaliza sua própria agenda, a negativa!
O Estado não consegue expandir-se na velocidade do apetite fisiológico. Onde o produto interno bruto (PIB) caminha a passo de cágado e o medo da volta da inflação impõe comedimento fiscal, há escassez e tergiversação: os garçons apenas anotam pedidos. Nesse contexto, Romero Jucá e Cândido Vaccarezza se equilibravam, malabaristas de um jogo lancinante. Mas haja destreza para lidar com tantos marimbondos de fogo.
No impasse, Jucá viu-se obrigado a escolher o senhor a quem se devotar. Voltou para o leito de Renan Calheiros e José Sarney. Já Vaccarezza atordoado estava e atordoado ficou, caminhando descalço sobre o fio da navalha de um PT dividido. Jucá e Vaccarezza, seus grupos, também saberão a hora de dar o troco.
Os novos líderes, Eduardo Braga e Arlindo Chinaglia, podem facilitar a interlocução, são sangue novo e promessa de novos ares, têm um estoque de palavras a empenhar. Mas quem representarão? O governo ou as demandas? Dilma resolveu medir forças com a parcela mais voraz, articulada e astuta da base. Dará resultado? Os adversários têm mais paciência e experiência do que a presidente e são também menos pressionados. A voracidade nunca se farta: em vez de atender a ela ou enganá-la, melhor seria eliminá-la.
Há neste governo, porém, dois problemas crônicos que compõem um verdadeiro enigma: falta-lhe a base coesa e programática, fiel e disposta a defender uma agenda; mas carece também de uma agenda clara e politizada, que aponte rumos e garanta o que se conquistou nos últimos 20 anos; uma agenda capaz de persuadir e/ou coagir a base, dando-lhe coesão e rumo programático. O que vem primeiro, a base ou a agenda?
A despreocupação programática, a inexistência de agenda e a conciliação são terrenos férteis para a corrosão fisiológica. E isso, é claro, compromete qualquer esforço de unir e orientar a base. A capitulação quanto às reformas não apenas implica a fragilização do desenvolvimento econômico, como também fortalece interesses individuais, reafirma o oligarquismo e o status quo. No Brasil de hoje – e isso não é responsabilidade exclusiva da presidente Dilma – há, lamentavelmente, um vazio de criatividade e de ímpeto da liderança. Pragmatismo em excesso é uma praga.
O círculo é vicioso, do tipo “o ovo ou a galinha”. Ou o tal “enigma de Tostines”: vende mais porque está sempre “fresquinho” ou o contrário? Provavelmente o biscoito venda porque se acredita que esteja fresquinho – o que faz com que venda mais, mantendo-se fresquinho. A liderança implica reverter o círculo; em algum grau, a crença, a ousadia, projeto e a utopia são imprescindíveis. Duelar com ideias pode ser uma luta vã, mas ao menos mobiliza sonhos e forja caracteres; escreve outra história. Sem isso tudo perde o frescor.
*Cientista político, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), é autor de ‘Collor, o ator e suas circunstâncias’.
Globo News Painel (16/03/2012)
Perniciosa mesmice
Carlos Melo*
PUBLICADO PELO BROADCAST, DA AGENCIA ESTADO
É claro que as eleições municipais são, antes de tudo, preparatórias para as eleições estaduais e nacional. Com elas, os partidos se reorganizam e tomam conhecimento de sua força territorial. Quem obtém maior número de prefeituras e, sobretudo, os maiores orçamentos, terá mais recursos – máquina, militantes, esquemas financeiros - e se fortalecerá para os próximos certames. É de posse desses “aparelhos” que as lideranças nacionais negociam nomes, alianças e coligações. Uma capital, por exemplo, conta muitos pontos: nelas, há recursos e visibilidade; algumas, visibilidade nacional. A administração paulistana é, portanto, a joia da coroa. Quanto vale São Paulo em recursos, militantes, esquemas e visibilidade?
Muito. E assim, a eleição de São Paulo se transforma num jogo a parte, não apenas para vencer e governar. A simples possibilidade de concorrer já facilita o abrir de portas para negociação e barganha onde apoios e tempo de televisão são trocados por participação e cargos na administração municipal, nos governos estadual e federal. É o caso de legendas como o PDT, o PSB ou o PTB, por exemplo.
Mesmo, no âmbito de cada partido, a disputa de uma eleição em São Paulo define vencedores e perdedores internos. A campanha compreende recursos, controles e poder capazes de alterar a correlação de forças internas. Ejetar Marta Suplicy de cena, por exemplo, significou reduzir o poder de setores do PT-SP ao mesmo tempo em que a imposição do nome de Fernando Haddad fortaleceu os mais próximos do ex-presidente Lula. No PSDB, a candidatura de José Serra não apenas significa uma alternativa competitiva, na futura disputa de 2014, como também é uma tentativa de restituir-lhe parte do poder evaporado pela derrota de 2010.
Resolver os graves problemas da cidade é, portanto, preocupação de segunda ordem. O importante é controlar o extraordinário potencial da administração e, claro, seu formidável orçamento. Ademais, os problemas da cidade parecem mesmo insolúveis e sempre se poderá responsabilizar “as chuvas torrenciais” ou a ancestral “falta de planejamento” — o que em termos práticos compromete os principais partidos que já governaram a cidade. A PMSP pode não ser o único, mas é o principal prêmio do ano eleitoral. São Paulo vale a missa!
Mas, há uma problema: a cada eleição, a política e os políticos desgastam-se mais. Depois de tanto pedir eleições, o sistema se acomodou. Tudo bem, normalizamos o processo. Mas, o mais complicado está na incapacidade de renovação das agendas e na mesmice dos debates. A legitimidade da representação definha quando o eleitor perde o interesse; quando, bombardeado por escândalos cotidianos, passa a considerar política coisa de malandros; ou, esgotado pelos mesmos rostos, exerce o voto de um modo mecânico, escolhendo o primeiro poste, as tiriricas do caminho.
Os números obtidos por Marina Silva, na eleição presidencial de 2010, são mais que eloquentes e parecem revelar certa ânsia pela renovação: Marina apresentava-se como algo novo; sua agenda traduzia diferenças em relação à concorrência. Foram quase 20 milhões de votos. Imaginem sua presença numa eleição cuja cidade que se transformou num exemplo de deseconomia e parca qualidade de vida!
Mas, não há Marinas em SP. E, ao que tudo indica, não haverá espaço para isto. Com o Grid de Largada praticamente definindo, a nacionalização e a polarização do debate fazem recomeçar a histeria e o clima Fla x Flu das eleições de 2010; a mesma paixão, os mesmos impropérios, as mesmas línguas de aluguel… A definição de José Serra para concorrer às prévias (sic) do PSDB é a fagulha que faltava para, de lado a lado, acender a fornalha que queima reputações e anuncia cataclismos.
Assim como o PT, Serra vai se tornando uma figura controversa: há os que o amam e os que o odeiam. Assim como no caso do PT, constituiu-se ao seu redor uma verdadeira torcida organizada disposta a se transformar em brigada de rua. O debate é cada vez menos racional, desfocado de questões públicas concretas; torna a política um oceano de ressentimentos de lancinante tormenta, a mesma loucura de disputa. A mesmice de sempre.
O sistema político é arcaico, anacrônico e disfuncional; distante das questões concretas do dia a dia dos eleitores, distante da nova sociedade e da economia que se conformaram no Brasil dos últimos 30 anos e que se encontram em crise de projeto e de paradigma, em todo o mundo, pelo menos desde 2008. A mudança, porém, não se faz nem por mero gesto de vontade e nem de uma só tacada. A mudança de mentalidade começa, antes de tudo, pela renovação gradual de quadros.
Com efeito, a eleição paulistana de 2012 apresentará alguns rostos novos; outros nem tanto e alguns nem um pouco. Gabriel Chalita é de fato um rosto novo, mas que moldura o definirá? A do velho PMDB de Michel Temer? Fernando Haddad é, em tese, o novo. Mas, se deixará consumir pelo velho o ranço da burocracia partidária? Ou sucumbirá aos cálculos e às estratégias do ex-presidente Lula, definindo por ele, Lula, a sua bússola. Já novo que poderia surgir das prévias do PSDB foi abortado no ventre, sufocado pela oligarquia que controla o partido. Desde de 1996, Serra e Alckmin se revezam na condição de candidatos a PMSP. Teriam os ilustrados tucanos apenas esses dois nomes?
Assim como o PT — e a quase totalidade dos partidos nacionais –, o PSDB também respira a lógica da máquina. Basta se pergunte por que apelar justamente a Geraldo Alckmin – e não a outro – para que intervenha nas prévias do partido. Ora, porque Alckmin, assim como a presidente Dilma, tem a caneta do poder e as prensas do Diário Oficial.
José Serra, sem máquina e sem respaldo do partido, é um ser político alijado de projeto e poder. Necessita da máquina para fazer frente a Alckmin e a Aécio. Menos culpa sua do que pela lógica da política nacional. Serra tem todo o direito de se candidatar ao que quiser. Estranho é que um partido político não consiga pensar estrategicamente; lamentável a incapacidade nacional – não só do PSDB — de renovação de nomes, agendas e procedimentos. A possibilidade de renovação está consumida e amordaçada por esquemas de poder que tendem à perpetuação.
O jovem tem todos os defeitos do velho, com um agravante – disse Nelson Rodrigues: a falta de experiência! O modelo que nos trouxe até aqui foi útil, mas se esgotou. Precisamos de sol, água corrente e esperança no futuro; abrir as janelas, deixar o ar e o sol entrar. Mas, isto não parece possível, pelo menos por enquanto: se o PT tem seu “senhor de engenho”, patriarca inquestionável (Lula); o PSDB divide o latifúndio que lhe resta entre dois senhores feudais. E os vassalos já se movimentam.
*Carlos Melo, cientista político, professor de sociologia e politica do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”.
Gustavo Uribe, da Agência Estado
O Brasil necessita renovar os seus quadros políticos e um dos caminhos para se chegar nessa realidade são as eleições municipais, que funcionam como uma porta de entrada para os novos nomes. Com base nesta premissa, era de se esperar que a eleição para a maior prefeitura do País, a de São Paulo, tivesse foco no novo, como chegou a ser anunciado. Neste sentido, a escolha do nome do ex-governador tucano José Serra, que a despeito de ser uma liderança já consolidada, representa um retrocesso, uma aposta na mesmice porque não é um projeto novo, uma novidade. Além disso, a escolha mostra a enorme incapacidade do PSDB em se renovar. A avaliação foi feita pelo cientista político e professor de sociologia e política do Insper Carlos Melo.
Melo destaca que há 16 anos, o PSDB paulista disputa as eleições para os executivos municipal e estadual com apenas dois nomes: Serra e o atual governador Geraldo Alckmin. “Em 1996, o candidato do PSDB à Prefeitura foi José Serra, em 2000 foi Geraldo Alckmin, em 2004 foi Serra novamente, ano em que foi eleito prefeito, em 2008 foi o Alckmin e, agora, em 2012, será Serra de novo”, argumenta o sociólogo, questionando: “Será que os tucanos não têm outros quadros? Será que virou um feudo de apenas dois nomes que se revezam nas eleições?”
No seu entender, São Paulo e o próprio PSDB mereciam novos nomes, com novas perspectivas. Ele lembra que uma das críticas contundentes dos tucanos ao seu maior adversário, o Partido dos Trabalhadores, é com relação ao chamado ‘patriarcalismo’ de Lula na legenda. “O PSDB faz uma crítica, com propriedade, ao certo patriarcalismo do Lula no PT. E o que dizer dos dois patriarcas tucanos (Serra e Alckmin) que se revezam no poder em São Paulo? Em vez da consolidação de um patriarca, como é o caso do PT, o PSDB tem dois que se revezam.”
Em contrapartida, Melo destaca que a opção do PT pelo nome do ex-ministro da Educação Fernando Haddad foi uma aposta acertada. E lembra que desde 2000 o PT vinha jogando suas fichas na senadora Marta Suplicy, que é também uma liderança consolidada, mas enfrenta um processo de desgaste junto ao eleitorado da cidade. Ele cita também o PMDB, que traz o deputado federal Gabriel Chalita como pré-candidato, um outro nome novo nesse tipo de embate. “Era de se esperar que o PSDB também fosse nessa linha, trazendo um nome novo para a disputa, como por exemplo o do secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas”, reitera Melo.
Além da crítica com relação à falta de renovação na chapa tucana, o cientista político também adverte sobre a falta de discussão sobre os reais problemas da cidade de São Paulo, nesta fase de pré-campanha na Capital. “A última coisa que está se discutindo é a funcionalidade de São Paulo, que enfrenta graves problemas, já que não conseguem nem mesmo organizar uma apuração de carnaval. Não é legítimo usar a cidade de São Paulo, simplesmente como um instrumento, enquanto uso da máquina e recursos da cidade, para se discutir 2014 porque um grupo quer tirar o outro do poder. É preciso tratar o cidadão e a cidade com mais respeito”.
Estratégia. O presidente estadual do PSDB de São Paulo, Pedro Tobias, rebate a tese de Carlos Melo e diz que a escolha do nome de José Serra foi “uma saída estratégica adotada pelo PSDB”. “É interessante que o PSDB tenha nomes novos, sim, mas eles devem encontrar o seu espaço no partido, ninguém dá espaço na política.” Para Tobias, “o espaço na política não é dado, ele é conquistado e os dois (Serra e Alckmin) conquistaram espaço no partido e eles sempre pareceram os nomes mais viáveis para vencer as eleições no Estado”.
NOTA: Publicada pelo site do Estadão, em 29/02/2012, a entrevista deu pano prá manga. No mesmo dia, em seu blog e no estilo que lhe é peculiar, Reinaldo Azedo tratou de “descer o sarrafo” nas minhas colocações e, indiretamente, neste “cientista político”. Amigos e leitores me disseram que algumas críticas apenas dignificam o criticado e, portanto, ser contraditado por Azevedo seria um prêmio. Sinceramente, não atribuo tanta importância assim, nem ao estilo de crítica e menos ainda ao tipo de crítico. A mim parece que se assemelham a comentários que leitores fazem nos rodapés das matérias; um produto típico da internet. Às vezes são os petistas os incorformados, noutras os tucanos ficam indignados. Desta vez foi um tucano. De todo modo, discordar é um direito que reconheço e respeito. Mas, também me dou ao direito de manter minhas opiniões; e, sobretudo, não bater boca de um modo apaixonado e partidário. Definitivamente, não faz meu estilo. A polêmica, ganha pão de uns, pode ser indiferente para outros. Em todo caso, democraticamente, segue o link: http://migre.me/89s7C
Entrevista ao Estadão.com: ‘Discurso adotado por Dilma é parecido com o do Serra e Alckmin’
Carlos Melo, doutorado na Ciências Políticas na PUC-SP e professor do Insper, avalia em entrevista ao ‘estadão.com.br’ as perspectivas do PT para as eleições de 2012 em São Paulo
Bruno Siffredi, do Estadão.com.br (em 25.01.2012)
A imagem construída pela presidente Dilma Rousseff no seu primeiro ano de governo pode ser fundamental para o PT voltar a crescer no interior de São Paulo, afirma o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Segundo ele, o estilo “mais conservador e moralista” da presidente pode ditar as características dos candidatos do PT no Estado para aumentar a presença do partido nas próximas eleições.
Melo se baseia nos números das duas eleições presidenciais disputadas pelo PT contra governadores paulistas (2006 e 2010) para concluir que houve uma divisão no eleitorado brasileiro por faixas de renda. “O PT teve uma enorme penetração no Nordeste, Norte e nas regiões mais pobres do Sudeste e do Sul. Mas em municípios mais ricos houve uma opção pelo PSDB nestas duas eleições”, observa.
Ele frisa que no Estado de São Paulo, onde há “municípios relativamente ricos, relativamente desenvolvidos”, a divisão significou uma crescente indisposição com o PT e com a imagem do ex-presidente Lula, que para ele teria se tornado “uma figura controversa” no interior do Estado.
Melo classifica como extraordinário o fato de Lula ter transferido para Dilma 100% dos seus votos em SP, mas aponta como curioso o petista ter conseguido crescer no Brasil todo, menos em São Paulo, onde o partido manteve o patamar de votos em 2006 e 2010.
A aproximação com Fernando Henrique Cardoso e a parceria com o governador paulista, Geraldo Alckmin, segundo Melo, pode ser um dos fatores que contribuiriam para diminuir a resistência ao PT em SP.
Leia abaixo a entrevista:
Como o senhor vê a situação do PT no Estado de São Paulo, nas regiões distantes das áreas de maior influência do partido?
A situação é difícil porque sempre houve muita resistência ao PT. Também é verdade que o PT tem crescido ao longo desses anos todos. (O PT) Deu um salto, como os números mostram, de 2002 para cá. Basicamente dobrou o número de prefeituras durante o governo Lula. No entanto, Lula só começa a crescer vertiginosamente em 2008. A Dilma e o Lula, em 2006 e em 2010, tiveram em torno de 34% (fora da Grande São Paulo), que mais ou menos é o teto do PT no Estado todo. O PT parte disso, dos 30%. O Lula sensibilizou pelo câncer. O PT cresceu, tem um numero maior de prefeitos e vereadores hoje, tem a máquina, tem recursos. O PT, hoje, tem menos de 10% dos municípios e pode crescer um pouco mais, porém partidos como o PSDB, o PMDB e o PTB ainda são muito grandes e muito organizados no interior de São Paulo. São partidos mais conservadores, que despertam uma rejeição menor e têm mais o perfil do interior do Estado. Acho que o PT tem condições para crescer.
Após a vitória de Lula em 2002, o PT deu um salto em número de prefeituras e vereadores. Na eleição seguinte, praticamente não avançou. Como o senhor avalia a performance do partido antes e após a eleição de Lula em 2002?
Você tem aí dois pontos. Em 2000, o PT não era governo. Ainda assim, a Marta Suplicy ganha a eleição em São Paulo. O PT foi para a eleição de 2004 tendo a máquina federal, a máquina paulistana e mais organizado do que nunca na sua história. Então esse salto é natural e explicado. Em 2008, no entanto, não manteve isso. Talvez o PT tenha, em 2004, dado o salto que podia dar e tenha chegado ao seu limite. 2008 pode ser a prova dessa teoria. Por outro lado, a eleição de 2006 foi muito pesada para o Lula. Ou seja, se o Lula tem em média 40% em 2002, ele observou uma queda muito grande no Estado de São Paulo em 2006.
Como o senhor avalia os números de votos obtidos por Lula em 2002 e 2006 fora da Grande São Paulo?
Você tem duas coisas importantes aí. Primeiro: o escândalo do mensalão e o desgaste do PT, que têm efeito em São Paulo diferente do resto do Brasil. Segundo: em 2006, Lula disputa com José Serra, então governador de São Paulo. Em 2002, Serra não era conhecido. Em 2006 e 2010, o PT disputa a Presidência da República com os dois governadores de São Paulo. Bem avaliados e que fizeram sucessores (Alckmin faz o Serra e o Serra depois faz o Alckmin). É importante pontuar que o eleitorado do Brasil se dividiu nestas eleições. Em 2006 e 2010 houve uma divisão não só regional, mas também social do eleitorado. O Estado de São Paulo tem, de forma geral, municípios relativamente ricos e relativamente desenvolvidos, mas a composição social passa a ser contraditada com o eleitor típico do PT, que é do Nordeste e acaba sendo de alguma forma favorecido pelas políticas públicas do governo petista. Começa então a existir críticas e indisposição por parte da classe média em relação ao governo. Surge, então, uma divisão regional e de classe social do eleitorado, que começa a rejeitar o Lula e o PT. Em 2006 e 2010, essa classe agiu exatamente dessa forma.
E qual leitura é possível fazer da popularidade da Dilma no Estado de SP?
Dilma é uma figura menos controversa do que o Lula. As pesquisas de opinião têm mostrado um crescimento na popularidade dela no Estado, inclusive nos extratos sociais mais abastados. Porém, é preciso avaliar o impacto na figura da presidente de suas ações no primeiro ano de governo, incluindo a faxina no seu Ministério, e como mexe com a resistência por parte do paulista à Dilma. Três momentos são importantes em 2011. O primeiro é quando ela recebe Obama, se aproxima do Fernando Henrique, e depois quando ela se aproxima e fecha convênios com o Alckmin. Acredito que, no futuro, veremos se essa diminuição da resistência vai ser transferida para os candidatos do PT. E também como essa maior popularidade e maior penetração da Dilma nesses extratos médios podem ter efeito nesses municípios fora da região metropolitana de São Paulo.
Nas eleições presidenciais, a melhor votação que o PT teve foi em 2002. Sob a ótica apenas dos números do segundo turno, pode-se identificar uma oscilação negativa nas duas eleições seguintes. Como Dilma consegue melhor popularidade se sua imagem era totalmente vinculada ao Lula na eleição de 2010?
A Dilma teve no primeiro e no segundo turno mais ou menos o mesmo tamanho que o Lula teve. Em 2006 e 2010, Lula, em São Paulo, transferiu para Dilma 100% dos votos que ele tinha, o que é extraordinário. Mas é extraordinário também que o crescimento que Lula teve no Brasil inteiro não tenha acontecido em São Paulo. O Lula é uma figura estigmatizada em São Paulo. O discurso adotado por Dilma é parecido com o do Serra e Alckmin, campeões de voto no Estado. Ela firmou uma parceria com Alckmin que Lula não teve de 2002 a 2006, tampouco com o Serra de 2006 a 2010. No que diz respeito à popularidade, as pesquisas apontam que ela (a resistência nas classes médias e altas) tem diminuído. Depois vamos ter que ver se essa diminuição da rejeição se transfere para o PT, se ela se transfere para os candidatos a prefeito do PT.
Se isso se comprovasse, a Dilma poderia ter um papel mais importante que o Lula para conquistar o segmento mais conservador do eleitorado?
O PT tem adotado candidaturas mais conservadoras. Um exemplo é São José dos Campos. O PT já foi governo em São José dos Campos com uma professora, Angela Guadagnin, que foi super polemica e perdeu a reeleição. Depois com Carlinhos de Almeida, um militante estudantil que ao longo do tempo, faz uma inflexão ao centro e fica à imagem e semelhança do eleitor de São José dos Campos. O que aconteceu é que o eleitorado continua o mesmo, mas o perfil da candidatura mudou. O perfil no Estado do São Paulo vai ficando mais centrista, menos de esquerda, digamos assim. Vai se delineando como mais conservador. Na definição dos candidatos é que poderemos identificar a aposta do PT: se é mais esquerdista, o PT de ontem, ou se é um PT que depois da experiência no poder se moderou, se depois de dez anos no poder, de 2002 a 2012.
Governo Dilma, balanço e perspectivas
Publicado em O Estado de S. Paulo, 28.12.2011
Apologistas tendem a enaltecer o primeiro ano da presidente Dilma. Dizem que, afinal, o governo aprovou tudo o que quis e, ademais, os índices de popularidade – comparados aos dos antecessores – são provas cabais de sucesso. Nada é tão simples: o Executivo enviou ao Congresso somente o inevitável e, ainda assim, não aprovou tudo. Temeroso, não encarou conflitos nem arcou com os elevados custos de negociação para uma nova agenda. Objetivamente, jogou para não perder muito, e para não perder era vital manter a Desvinculação de Receitas da União (DRU). Quanto à popularidade… Ora, “as condições de primeiro ano” são de longe muito mais favoráveis a Dilma do que as de FHC, em 1995, ou de Lula, em 2003.
Já para os apocalípticos da oposição, tudo está perdido: ressaltam-se a corrupção, a dificuldade de articulação, a base fisiológica, a deterioração da atividade política. “Afinal”, dizem, “sete ministros foram carbonizados, seis por escândalos. É a herança maldita de Lula”. Também aí há exagero: o saldo do ex-presidente é positivo e a complicada composição do governo é justamente a paga pela eleição de Dilma. Ainda assim, a presidente mostrou ser mais pragmática que seus antecessores e não hesitou em atirar ao mar quem pudesse comprometer o governo. Os problemas são estruturais e vêm de longa data.
Como sempre, a verdade está no equilíbrio: esse início de governo não foi o desastre anunciado pela oposição – uma presidente sem autoridade, incapaz, em contradição com o antecessor, que a impediria de governar; houve tensão, mas não se pode falar em fragmentação do bloco no poder instituído por Lula. No entanto, tampouco houve avanços: o País girou em torno do que inapropriadamente se chamou “faxina” – que, no caso, foi menos disposição de “limpar” do que reação aos estilhaços dos cristais que se foram.
Na verdade, houve retrocessos. Com a queda de Antônio Palocci e sem agenda clara, o governo perdeu o centro de negociação, a arbitragem e o equilíbrio entre desenvolvimentistas e ortodoxos; patinou em medidas de fôlego restrito. A inflação saiu do centro da meta e, mesmo assim, o crescimento se deu em patamares modestos; a autonomia do Banco Central foi questionada e uma relação controversa com o mercado se estabeleceu. Arranhou-se a imagem construída em 16 anos.
Há paralisia e impasses a mancheias e isso só não é mais evidente porque a crise internacional concentra atenções e permite sofismar: estamos bem porque os outros vão mal? É deplorável quando se chega ao ponto de torcer pelo agravamento da crise externa como freio à atividade econômica e à inflação internas. Algo precisaria ser feito, mas as dificuldades para o desenvolvimento sustentável se iniciam na inviabilidade política de reformas no âmbito do Estado, da economia e da sociedade.
Se o capital político do primeiro ano não foi integralmente consumido – são elevados os índices de popularidade -, tampouco foi bem aproveitado: houve desperdício do momento mais propício ao tensionamento e à decisão. Em política há timings e a oportunidade que se esvai se vai irremediavelmente. O governo, que poderia avançar, anda de lado – e é provável que assim permaneça.
Prognóstico arriscado, é claro, já que a História surpreende. Mas a agenda dos próximos anos não é animadora para quem quer surpreender-se positivamente. Há estoques de recursos que permitem ir tocando a mesmice, há reservas e políticas de incentivo à demanda que ainda podem dar alguma sensação de bem-estar. Podem-se empurrar com a barriga os conflitos mais sérios, como o tributário e o fiscal. E até porque, comparado ao mundo caótico, o Brasil é uma ilha de prosperidade, as circunstâncias de curto prazo dirão: não se afobe, não, que nada é pra já!
Uma reforma ministerial é prometida para o início de 2012. Mas é pouco provável que altere a lógica da coalizão – distribuição de cargos e recursos em troca de apoio. É improvável que os partidos ofereçam algo melhor que os nomes que se esboroaram em 2011 – há uma inegável crise de quadros. Ademais, o corporativismo é forte e influente, será difícil consolidar pactos que limitem o populismo e a voracidade em ano de eleição. A menos que nos surpreenda muito, a reforma será limitada nos gestos e nos efeitos, servindo à retórica e à simples readequação de forças na base governista.
Por falar em eleições, é incorreto pensar que as municipais de 2012 obedeçam exclusivamente a lógicas locais. No agregado, o que estará em jogo será a formação dos times de 2014: o maior número de prefeitos e vereadores significará mais recursos, maior capilaridade territorial, mais cabos eleitorais, estruturas municipais e máquinas partidárias nas ruas. Nas maiores cidades, mais visibilidade e ainda mais recursos. A disputa de 2012 implicará maiores conflitos, mais gastos e concessões e uma agenda ainda menos criativa.
A pancadaria entre partidos tende a se aguçar; o fogo amigo e o tiroteio inimigo se avolumarão; como é óbvio, esquemas e escândalos ocuparão a mídia. Em paralelo, confusões em torno da Copa do Mundo… O que for preciso será feito para garantir a sensação imediata de crescimento e bem-estar. Portanto, não será um ano de avanços e melhorias institucionais, nem sempre populares.
Tudo plenamente articulado a 2014, o ciclo político-eleitoral será longo. Nesse cenário, os instrumentos tornam-se ainda mais limitados. Emplacar uma nova agenda, reformista, moderna e audaciosa não é prioridade. O problema está menos no governo de plantão do que no sistema político autofágico e na incapacidade de críticas mais profundas e certeiras. Apocalípticos não admitem a dificuldade de mudar, apologistas não reconhecem que há pouquíssima disposição para mudança.
Cientista político, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), é autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”


